João Bénard da Costa

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Entrevista

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Gostaríamos mais uma vez agradecer ao Doutor João Bénard da Costa, que tornaram esta entrevista possível e que assim de certa forma contribuíram bastante para o nosso trabalho.

 

Isabel Q. Silva: Houve algum momento marcante na sua infância que gostaria de realçar?

Doutor João Bénard da Costa: Gostaria de realçar um momento que foi para mim bastante difícil e que depois, mais tarde, vim a descobrir que teria consequências curiosas.

Foi quando eu tinha seis anos, em quarenta e um. Estávamos em plena guerra e durante esse ano a Alemanha estava a ganhar a guerra em toda a parte da Europa. Tinha ocupado a Europa inteira, à excepção de Inglaterra, que era o único país que continuava a resistir. Os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra e, tendo a Alemanha já ocupado toda a Europa ocidental, havia muitos boatos e rumores dizendo-se que a Alemanha preparava um ataque à península ibéria, portanto Espanha e Portugal, até porque isso permitiria tapar a entrada do mediterrâneo aos ingleses e ocupar Gibraltar, que nessa altura era um importante posto defensivo. Digamos portanto que era uma hipótese plausível, verosímil e que existiu. Hoje sabe-se historicamente que essa operação existiu e que até teve um nome, foi-lhe dado um nome de código. Foi uma hipótese pensada muito a sério pelo estado-maior Alemão e que acabou por não se concretizar porque Hitler decidiu atacar primeiro a Rússia. Estava sempre com medo: tinha feito um pacto com a Rússia e estava sempre com medo que a Rússia violasse essa aliança e portanto ele era atacado pelas costas e em vez de ser atacado resolveu atacar, o que nos salvou e para ele foi a perdição porque partir no ataque à Rússia começou a correr muito bem para ele ao principio mas depois passou a correr mal, pois a guerra mudou de rumo.

Mas havia esse rumor de que podia estar eminente um ataque a Portugal. E nessa altura circulavam muitas historias do que se tinha passado noutros países, de quando se atacava uma cidade e da fuga das populações civis das cidades. Claro que a cidade era um sítio mais perigoso para se estar e normalmente as famílias, etc. tentavam fugir das cidades, dos bombardeamentos, de tudo isso, para ir para o campo, para sítios onde estariam mais defendidos. E havia muitas cenas e descrições de todas as dificuldades dessas fugas sobretudo quando havia crianças e portanto galgar quilómetros e quilómetros com crianças não era fácil. E então o meu pai tomou essa hipótese a sério e pensou que se uma coisa destas acontece – tinha 4 filhos nessa altura: duas irmãs minhas mais velhas, que já tinham 10 e 8 anos, e uma irmã mais nova, que tinha 4 anos – e portanto pensou que nós dois, que éramos mais novos, podíamos ser “abrigados” e falou com o irmão dele, que era médico e vivia no Algarve, trabalhava em Portimão.

O Algarve nessa altura era um sítio muito tranquilo, não havia ainda turismo e não havia hipóteses remotas de, no caso de uma invasão, fossem atacar o Algarve. E ele perguntou ao irmão dele se nós podíamos ir lá até ver onde paravam as modas. Isso, claro, foi uma história que não foi falada à minha frente, não andavam a contar esses pormenores à minha frente mas eu fui ouvindo. Embora fosse um miúdo, fui ouvindo aqui e ali bocados de frases e lembro-me de ter tido a noção de que não ia, como estavam a dizer, passar umas férias – isso era para aí em Maio já estava na infantil e tinha de interromper as aulas para ir para umas férias na praia da Rocha - mas que alguma coisa mais grave se passava e lembro-me da ideia de que poderia nunca mais voltar a ver os meus pais. Mas não podia falar muito nisso porque, quando eu falava nisso, dizia alguma coisa, eles riam-se, tentavam disfarçar, diziam: “Não, vocês vão lá passar uns dias! Vai ser tão bom, ir para a praia, brincar. Aquilo é tão bom e depois nós lá nos encontramos.”

Mas eu senti essa tensão toda e senti que era um momento muito especial porque já sabia da Guerra: com aquela idade mas já teria ouvido talvez alguma história desse género. Aquilo assustou-me imenso e fui para lá, não havia mais crianças, era só eu e a minha irmã. Coitados, eles foram amorosos, mas era a primeira vez que estávamos separados dos pais e durante um período que foi 2 meses ou coisa assim, um período relativamente longo e eu lembro-me que sofri imenso com essa ausência, com o sair de casa, com o estar longe. Mal sabia escrever, ainda estava a começar aprender, e nessa altura os telefones praticamente não funcionavam, nada era como hoje: não era telefonar todos os dias. Hoje era facílimo, do Algarve para aqui, para já não falar dos telemóveis. Mas nessa altura um telefonema de Portimão para Lisboa era uma coisa que demorava, tinha de se pedir com meia hora ou uma hora de avanço, custava caríssimo e praticamente não se fazia, salvo se acontecesse alguma coisa muito grave. Eu escrevia uns postais, uns gatafunhos, e tinha a impressão que eles nem sequer metiam aquilo no correio, mas depois as cartas também demoravam a chegar e a minha mãe não respondia. Um dia recebo um postal da minha mãe a dizer “então não me escreves” e dera de repente a pensar ”estou cortado de comunicações completamente”. Aquilo foi-se ampliando e foi uma coisa para ter pesadelos horríveis e uma noção de um sentimento muito grande. Claro que depois houve o ataque à Rússia, o perigo passou nesse sentido e depois voltei. Foram para aí dois meses que estive lá, não mais que isso. Mas dois meses aos seis anos parecem uma eternidade.

Passou-se anos e anos que não voltei ao Algarve e, ia até muito bem disposto, na altura o Algarve começou a estar na moda. Eu e a minha mulher tínhamos arranjado um hotel simpático, portanto umas boas férias e é engraçado pois, quando eu cheguei ao Algarve, senti de repente qualquer coisa como uma aflição, uma angustia, uma coisa que não sabia explicar – era o cheiro, a luz, tudo aquilo despertaram recordações. Mas eu dizia “porque é que me estou a sentir assim” e de dia para dia aquilo agravava-se. Era uma coisa que… “só quero sair daqui”. Estava optimamente instalado e eu não percebia. Já me tinha esquecido completamente desta história, não percebia esse tipo de reacção. Até que de repente pensei – “há qualquer coisa que se passou aqui” e pensei nessa historia e de facto cada vez que voltei ao Algarve, e voltei muitas vezes, correu sempre muito mal, foi sempre um sitio onde me senti muito mal, e nessa altura eu jurei nunca mais voltar ao Algarve. E atribuo isso a eu ter – às vezes as crianças depois esquecem-se – mas a ter sofrido muito ali, a tudo aquilo que se passou se ter enraizado no meu subconsciente, de uma maneira tão forte que, quando em adulto fui confrontado com aquilo, era como se todos esses fantasmas viessem outra vez ao meu encontro. Foi bastante traumático. Esse episódio marcou bastante e marcou para o resto da vida, ainda hoje eu tenho essa relação difícil com o Algarve. E toda a gente pensava que eu não estava a perceber bem. Para uma criança de seis anos, o que é a guerra? e não andava a ler jornais para saber. Mas ia ouvindo as conversas dos adultos – as mortes da guerra, de pessoas que chegavam refugiados.

Dizem sempre que as crianças não percebem ou não ligam, mas percebem sempre, muito mais que os adultos acreditam ou pensam. Por isso é que eu sempre reagi quando as pessoas dizem “podes falar disso que aquele não percebe nada” ou “não está a perceber nada”. É criança e as crianças percebem sempre bastante mais – têm antenas até para detectar o humor e disposições. Por exemplo, zangas dos pais e a criança sofre imenso com isso e às vezes os pais não ligam nenhuma e a zanga até nem teve importância, não foi por motivos graves, mas qualquer coisa que aconteça a criança fica… é o mundo que está a desabar. E, nessa altura, quando eu era criança, não supunham, no meio em que eu vivia, a ideia de pensar numa separação dos meus pais ou qualquer coisa desse género, que hoje é muito corrente, acontece à maior parte das crianças e – a maior parte não direi, mas a muitas. E pensa-se sempre que as crianças recuperam isso e eu penso sempre que isso marca uma criança para o resto da vida sobretudo se essa separação foi traumatizante ou houve grandes dramas em torno desse separação e é sempre um momento terrível para as crianças. Não quer dizer que às vezes não haja outra solução e que as pessoas tenham de ficar uma com a outra, mas quando há filhos é sempre um problema muito grande e dizer que as crianças não são afectadas com isso – vêem a mãe, vêem o pai, continua tudo a correr muito bem – é falso, porque não continua. A criança precisa daquelas presenças e quando uma delas falha ou quando há uma rotura, a criança sente sempre e depois a criança habitua-se a não falar, a recalcar isso, a dizer pouco, a perceber que é um terreno difícil, a ter de tomar partido emocionalmente – ou pelo pai ou pela mãe, fica com um, fica com outro. São sempre situações muito terríveis e as crianças sofrem muito nessas alturas. Agora, como é evidente, tudo isto são coisas que depois as pessoas recuperam. São coisas já que dependem muito da predisposição de cada um. E depois a psicanálise estuda muito isso, buscar os traumas de infância, é possível, às vezes, um médico responder e bem porque é que há crianças que se diz “ ela ficou assim porque com um ano a obrigaram a dar um beijo ao cadáver da avó” e outros que estiveram, por exemplo, em campos de concentração, que passaram situações horrorosas e aparentemente são pessoas normais mas é claro que ficam sempre marcadas e há uns que ficam muito perturbados e até para o resto da vida e às vezes por coisas que em comparação com outras são insignificantes ou não têm importância. Enfim, isso já depende muito da predisposição de cada pessoa a criar as suas próprias fobias ou neuroses. 

 

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